31 de mai de 2011

O carisma dos Missionários Xaverianos – Seu fundador “ Guido Conforti e Papa João XXIII”

O carisma dos Xaverianos está expresso no nome: Missionários.


Os missionários Xaverianos são uma congregação religiosa vinculados por votos para o trabalho missionário em todo o mundo, na missão de levar a mensagem de Cristo ao mundo todo, principalmente aos mais pobres dos pobres e excluídos, aonde ninguém quer ir, lá estão os Missionários Xaverianos.

Fundada em Parma (Itália), pelo Padre Guido Conforti, sacerdote diocesano, que mais tarde tornou-se arcebispo de Parma.
Os missionários da congregação missionária fundado por Conforti é chamada de Os Missionários Xaverianos, porque tinham de seguir a São Francisco Xavier nos santos passos e espírito, levando a missão chamada pastoral e vocacional, levando o Evangelho de Cristo a quem ainda não sabe disso.

Seu lema: Cristo é tudo.


Seu fundador, Guido Conforti, será canonizado no próximo dia 23 de outubro de 2011, pelo Papa Bento XVI, razão pela qual oportuno o texto trazido pelo Pe Domingos Borroti, sobre a vida, pensamento do santo fundador da congregação, cujo primeiro milagre ocorreu aqui no Brasil, no Estado de Minas Gerais.
O Texto do Pe. Domingues faz um paralelo entre os pensamentos do Papa João XXIII, que convocou o Concilio Vaticano II e a influência do pensamento de Confort no Vaticano II, no tocante a “Nova Evangelização” e a “Missão Ad Gentes”, idealizada por Guido Conforti, que morreu 30 anos antes do inicio do Concilio Vaticano II, e que já tinha concretizado com sua vida os sonhos do Vaticano II no tocante a Igreja Missionária e o Cristo Eucaristico.

Confira no o texto, abaixo transcrito, de autoria do Pe. Domingos Borrotti, extraído do Blog da Associação de leigos e leigas Xaverianos:

"GUIDO CONFORTI E O PAPA JOÃO XXIII

UM NOVO SANTO: GRANDE DOM DE DEUS PARA TODOS NÓS.

Pe. Domingos Borrotti, Provincial dos Xaverianos, Brasil Sul

No dia 23 de Outubro de 2011, o Santo Padre, o Papa Bento XVI canonizará o Bem-Aventurado Dom Guido Maria Conforti. Ex-Arcebispo de Ravenna - Itália e depois bispo de Parma – Itália. Este santo bispo traz uma mensagem clara e valiosa para toda a Igreja. Celebrando os 25 anos da sua morte, afirmava o Cardeal Ângelo Roncalli (futuro Papa João XXIII), numa palestra em Parma no ano de 1957, que Dom Guido era o exemplo mais claro de bispo Católico, porque unia na sua pessoa o empenho de manter viva a fé em sua diocese e, ao mesmo tempo, a solicitude para todas as Igrejas. Parece mesmo que a influência de Dom Guido foi grande em João XXIII.

De fato, podemos nos perguntar: onde João XXIII buscou a visão de padre e de bispo que ele transmitiu com tanta clareza no Vaticano II.

Onde João XXIII amadureceu o seu olhar para longe, ao mundo todo e que tanto influenciou os padres Conciliares e contribuiu para fazer amadurecer neles, durante o Concilio, uma nova figura de Bispo, de padre, de leigo, e também uma nova visão da própria Igreja?

Uma resposta, também se não exaustiva, a indica para nós o próprio Papa Dom Ângelo quando em 1957, ele mesmo lembra um fato acontecido 30 anos antes. Ouçamos o que ele mesmo diz quando, no teatro principal da Cidade de Parma, afirma: «no dia 26 de Abril de 1922 eu subia as escadas do palácio episcopal de Parma para encontrar o Servo de Deus Guido Maria Conforti (Ângelo Roncalli naquele ano era padre bem novo e tinha sido nomeado diretor nacional das pontifícias obras missionárias), leio no meu diário ligadas a estes dias estas palavras: “Visita preciosa a Dom Guido Conforti”. Eu procurava Dom Guido como expressão episcopal, a mais destacada na Itália daquele feliz movimento feito nascer da Encíclica Maximum Illud do Papa Bento XV. Procurava-o como representante daquela plenitude de Ministério sagrado que associa o Bispo ao Missionário, Bispo de Parma, mas também missionário para mundo inteiro[1][1]».
A partir de 1922, o Dom Guido Conforti e o Dom Ângelo Roncalli se freqüentam regularmente entre eles por motivos de compromissos comuns e também com o Padre Paulo Manna do PIME (Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras). De fato, Dom Guido era o primeiro Presidente da União Missionária do clero italiano, fundada havia pouco tempo pelo Padre Paulo. Quando Dom Guido deixou este encargo dez anos depois mais de metade do clero Italiano tinha aderido a esta iniciativa.

A correspondência epistolar entre Dom Guido Conforti e Dom Ângelo Roncalli, e da qual temos guardadas varias cartas, testemunha-nos que o relacionamento entre os dois era marcado por uma forte admiração e devoção filial de Dom Ângelo para com Dom Guido, espacialmente pelo fato de ser Bispo de Parma e missionário para o mundo todo. O Dom Ângelo não esconde no seu epistolário que olhava para Dom Guido como para um modelo de bispo a ser imitado.

Para dar uma idéia desta atitude, relato um trecho de uma das cartas enviada por Dom Ângelo a Dom Guido. A carta é datada em 7 de Outubro de 1924, diz exatamente: «Eu quis ler de novo o seu relatório no Congresso Eucarístico de Palermo... Agora o meu agradecimento ao senhor é mais vivo que antes por que as suas paginas deram muita satisfação ao meu espírito. Acrescento que guardarei aquele caro opúsculo sempre no meu escritório, para tê-lo o mais possível nas mãos como fonte de excelentes pensamentos. Os nossos encontros pessoais não são mais frequentes como antes, porém eu sempre me lembro do senhor e da sua lembrança tiro inspiração para trabalhar sempre mais, mesmo se na calma, porque eu não sou capaz de correr, mas sem nunca cansar-me, em função deste bendito ardor para a cooperação missionária... Lembre-se de mim nas suas orações a Deus e em nome Dele me abençoe. Assim, como sempre, eu sou devotissimo e estimadissimo do senhor. Dom Angelo José Roncalli[2][2]» .

Certamente o texto mais interessante deste relacionamento, é certamente o já lembrado discurso do Dom Ângelo, Cardeal-Patriarca de Veneza, no dia do vigésimo quinto aniversário da morte do Dom Guido.

Neste discurso Dom Ângelo reconhece em Dom Guido duas características que serão depois propostas pelo Concilio a todos os bispos e a toda a Igreja. De uma já falamos, vamos só rever o texto: «… bispo de Parma sim, pelos méritos do seu espírito inesgotável e da sua paternidade missionária, mas também bispo e pastor da Igreja universal. Por bem cinco vezes passou por todos os pontos da sua diocese (Dom Guido realizou visitas pastorais em todas as paróquias da sua diocese, por bem cinco vezes, coisa não fácil naquele tempo em que o meio principal de transporte era o cavalo). Por duas vezes todos os seus padres foram convocados para solenes sínodos diocesanos (coisa nada comum naquele tempo. Dom Guido celebrou dois sínodos diocesanos, e sabemos que o fez para revigorar o ardor missionário de seus padres). Promoveu com afinco indômito a formação catequética. (Já no começo de 1800, coisa incomum naquele tempo, promoveu semanas catequéticas de formação para todas as catequistas da sua diocese). Cuidou com fervor incansável, a devoção Eucarística e Mariana. Os exemplos de Dom Guido, para o clero e para o povo católico, marcam a todos especialmente em relação à doutrina sobre a ação e a animação missionária. Vem aqui, a propósito as palavras de São João Crisostomo para despertar a responsabilidade de todos nos em relação ao apostolado missionário:

“Bispo, padre ou simples fiel, não é simplesmente da vossa vida pessoal que você devem prestar conta a Deus, mas da salvação do universo inteiro. Eu não vos enviei, diz o Senhor Jesus, a dez ou vinte cidades, mas a todos os continentes, a todos os mares e ao mundo inteiro". Depois, em outro lugar, insiste de novo: "Vos não sois Mestres da Palestina, mas de todo o orbe terrestre" (S. João Crisostomo, Hom. XV in Evang. Matthei). Palavras estas graves e cheias de conselhos para o episcopado e o sacerdócio católico e chegam a incitar cada bom cristão[3][3]. A primeira característica foi de ter sido um bispo que, além de ser bispo de Parma, foi também, ao mesmo tempo, missionário de Cristo no mundo inteiro, fundando os Missionários Xaverianos que já no seu tempo atuavam na China, antiga meta missionária de São Francisco Xavier e hoje atuam em áreas missionárias de 19 países deferentes.

A segunda característica do Dom Guido que o cardeal Dom Ângelo Roncalli sublinha e que também será sublinhado com força pelo Vaticano II, é colocada pelo Dom Ângelo da seguinte forma: «Toda a sua vida foi um altar, um sacrifício erguido no meio do povo cristão para a edificação e o ensino de todo o povo de Deus. Deus o queira também de forma oficial e solene para interceder graças do Céu a Terra[4][4]». Neste ponto Dom Ângelo evidencia que toda a vida do Dom Guido foi um altar, foi Eucaristia ao longo de todos os dias em que viveu. Nisso Dom Guido antecipou também uma conclusão do Vaticano II que convida cada batizado a uma existência eucarística, ligando profundamente a Liturgia e a vida. O Vaticano II convida também toda a Igreja a tornar-se Igreja Eucarística, como evidenciará poucos anos após o termino do Vaticano II, o então teólogo Joseph Ratzinger e o teólogo Bruno Forte (1975). Os dois são autores de tratados teológicos sobre a Igreja Eucarística.

Atrás desta visão Eucarística do Cristão e da Igreja, se subentende também uma nova visão de Bispo[5][5], que é o exemplo para o cristão comum e ao mesmo tempo emblema da Igreja. A Igreja Eucarística, que celebra a Eucaristia com o bispo como presidente, e que age em "Persona Christi", é a Igreja sonhada pelo Vaticano II e também a figura do bispo é chamada a ser uma figura eucarística. É o próprio Papa João XXIII, que tanto influenciou o Vaticano II, que deixa a entender que o bispo Dom Guido Maria Conforti foi o bispo ideal para ele, que o inspirou, e que de fato antecipou com a sua vida as conclusões do Vaticano II e no campo da missionariedade, sendo bispo de Parma e missionário, mas, ao mesmo tempo, missionário para o mundo inteiro; seja no campo Eucarístico porque toda a sua vida foi um altar, um sacrifício elevado a Deus no meio de todo o povo, a edificação e o ensino de todos, unido assim Eucaristia e vida cotidiana.

Quase sessenta anos após a conclusão do Vaticano II, percebemos que o Concilio apresentou, por assim dizer, um novo modelo de Igreja, de Padre e de Eucaristia. Novo modelo que não elimina o modelo vigente na época do Vaticano II, mas que o completa e enriquece com a universalidade e a sacramentalidade já presentes na visão teológica dos Padres da Igreja e em todas as visões teológicas mais aprimoradas. Sempre a Igreja foi considerada sacramento universal de salvação, bem antes do Vaticano II, mas não era evidenciado suficientemente.
O Dom Guido que morreu trinta anos antes do início do Vaticano II, já tinha concretizado com a sua vida os sonhos dele. Isso seja no que concerne à Missão, seja no que concerne à Eucaristia e com a sua vida inspirou e influenciou de maneira decisiva Dom Ângelo Roncalli, que do Vaticano II foi certamente insigne protagonista e exerceu sobre este evento uma significativa influencia. O Pe. Lozano, professor titular emérito de Historia da Vida Religiosa na Pontifícia Universidade Claretiana de Roma, depois de ter estudado como obrigação de oficio (era perito dos Missionários Xaverianos na atualização das Constituições) a figura do Dom Guido, chegou a afirmar que: «Quando for conhecido, Dom Guido brilhará com luz própria, poderá ser até mais forte que São Francisco Xavier[6][6]». Dom Guido e o Papa João XXIII anteciparam com o próprio com exemplo de vida os caminhos que o Vaticano II indicaria a toda a Igreja, porque viveram juntos o binômio inseparável que é a Eucaristia e a Missão.

A Eucaristia é o mistério que explica a Missão, porque explica algo do mistério da Trindade, que enviando o Filho para salvar a humanidade, se torna a primeira comunidade missionária.

A Eucaristia é o amor trinitário feito pão, e o Documento de Aparecida acrescenta que: “A Trindade tem seu ponto alto na Eucaristia que é principio e projeto de Missão no cristianismo (DAp, 153). Além disso, evidencia que as comunidades e os grupos eclesiais darão fruto na medida em que a Eucaristia seja o centro de suas vidas” (DAp, 180) e a fonte e o alvo de toda atividade missionária” (DAp, 363).

O mistério da Eucaristia é o amor nupcial de Deus para com o ser humano e que nela se revela como amor salvífico universal. Nela Deus nos chama à sua mesa, a comunhão íntima com Ele e entre nós e, ao mesmo tempo, nos envia a levar a todos o convite a participar desta comunhão. A conclusão evidente é que primeiro vem, sim, a Eucaristia, mas não existe Eucaristia sem Missão (que é a concretização da vontade salvífica universal de Deus). Aquele que depois da Eucaristia não se sente enviado, é por que Nela não encontrou Jesus. Não somente isso, mas é verdade também o contrário, não existe Missão sem a Eucaristia, por que ela vem primeiro e é a fonte de tudo. A missão, quando é verdadeira, é Eucarística no seu método, nos seus conteúdos e na sua origem. Sem Eucaristia não existe a Missão verdadeira, aquela que o Cristo quer. O Missionário parte, não por causa do mal d’África, ou do mal da América etc., mas porque comeu o pão da Eucaristia. Como o amor ao próximo é a prova que o amor a Deus é sincero, assim o amor para a Missão é a prova que a Eucaristia foi entendida em profundidade. Se o povo de Deus hoje não é missionário, não é porque não entendeu a Palavra de Deus e a Missão de Jesus, mas porque não entendeu a Eucaristia.

A Eucaristia, como foi redescoberta no Vaticano II, nos dá pistas concretas sobre a comunidade que quer viver a Missão: nos diz que esta missão será primeiramente local e universal ao mesmo tempo, fruto de uma comunidade eclesial que será querigmática e nupcial contemporaneamente.

Não foi por caso que o papa aos bispos dos regionais norte e noroeste do Brasil, durante sua visita “ad limina apostolorum”,de 4 de outubro de 2010, dirigiu estas palavras: “A missão, portanto, nada mais é que a conseqüência natural da própria essência da Igreja, um serviço do ministério da união que Cristo quis operar no seu corpo crucificado.

Isso deve levar a refletir que o esmorecimento do espírito missionário talvez não se deva tanto a limitações e carências nas formas externas da ação missionária tradicional quanto ao esquecimento de que a missão deve alimentar-se de um núcleo mais profundo.

Esse núcleo é a Eucaristia. Esta, como presença do amor humano-divino de Jesus Cristo, supõe continuamente o passo de Jesus aos homens que serão seus membros, que serão eles mesmos Eucaristia. Em suma, para que a Missão seja realmente eficaz, esta deve partir da Eucaristia e conduzir para a Eucaristia”.

É também interessante ter presente como ensina a Igreja e também como dom Guido Maria Dom Guido que: “Sem a missão ad gentes, a própria dimensão missionária da Igreja fica privada do seu significado fundamental e do seu exemplo de atuação" (Redemptoris Missio, 34).

Bem sintetiza o Pe. Rino Benzoni, Superior Geral dos Missionários Xaverianos, quando escreve para o semanário da diocese de Parma “Vita Nuova”, falando da canonização de Dom Guido, fundador dos xaverianos e bispo da diocese de Parma: “Que lição Dom Guido oferece a toda Igreja? É extremamente difícil responder sinteticamente. De fato, se deveria analisar a sua santidade pessoal, o seu caráter marcado por um grande equilíbrio unido a uma grande coragem e constância, as suas escolhas seja como bispo ou como fundador e formador dos missionários.

Porém, gostaria de sublinhar um aspecto que constitui uma característica, quase exclusiva dele, no panorama eclesial, isto é, o fato de ser ao mesmo tempo totalmente bispo e totalmente missionário, onde os dois aspectos se iluminam e se completam mutuamente.

Dom Guido foi uma figura decisiva para o crescimento do espírito missionário da Igreja italiana, sobretudo fundando, juntamente com Pe. Paulo Manna, a União Missionária do Clero e se tornando seu incansável presidente por dez anos. Ensinou à Igreja o que seria codificado com o Vaticano II, ou seja, “que os bispos são consagrados não apenas para uma diocese, mas para a salvação de todo mundo (AG 38). Isso vale também para os sacerdotes e para todos os cristãos e é importante recordar-nos disso em um momento como este em que somos todos tentados a debruçarmos sobre os problemas internos em nossas Igrejas. Evidentemente para realizar isso é preciso que estejamos mais preocupados com o Evangelho do que conosco mesmos. A assim denominada “Nova Evangelização” e a “missão Ad Gentes” são, de fato, as duas pernas sobre as quais caminha a única missão da Igreja. Dom Guido soube viver ambas com totalidade e harmonia em tempos não menos difíceis do que os nossos”.

Não acho supérfluo lembrar que ainda hoje muitos cristão podem ser tentados a caminharem com uma perna só.
 
[1][1] Card Angelo RONCALLI ,Il seervo di Dio Guido Maria Dom Guido,discorso tenuto nel tearo regio di Parma, il 17 febbraio 1957, no trigesimo anno de falecimento de Dom Guido M. Dom Guido. In A Luca, Guido Maria Conforti. Testimonianze sulla vita e le Opere del Fondatore dei Missionari Saveriani, in alcuni discorsi commemorativi. EMI, Bologna, 1981. PP. 32-33.
[2][2] Guido Maria CONFORTI, Unione Missionaria del clero, lettere e discorsi dalla fondazione ( 1916) al termine del suo mandato di presidente(1927). Introduzioni e note, a cura di P. Franco Teodori. Procura Generale Saveriana, Roma, 1978. Pag 448.
[3][3] Card Angelo RONCALLI ,Il servo di Dio Guido Maria Conforti,discorso tenuto nel teatro reggio di Parma, il 17 febbraio 1957. In A Luca, Guido Maria Conforti. Testimonianze sulla vita e le Opere del Fondatore dei Missionari Saveriani, in alcuni discorsi commemorativi. EMI, Bologna, 1981. PP. 31-50.
[4][4] Ibidem, p. 32-33
[5][5] Visão não muito nova, mas bastante clara aos Padres da Igreja como nos mostra a sitação que o Cardeal Angelo Roncalli faz de São João Crisostomo.
[6][6] Afirmação feita pelo prof. Pe Lozano em Agosto de 1992, em conferência proferida aos Missionários Xaverianos durante uma semana de estudos em Cachoeira do Campo, MG, Brasil, para comemorar os 100 anos de vida dos Missionários Xaverianos.

27 de mai de 2011

Como entender este mandamento de Jesus? «É este o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei»

Comentário ao Evangelho do dia feito por São Gregório Magno (c. 540-604), papa e doutor da Igreja.

Homilias sobre os evangelhos, nº27; PL 76, 1204

Evangelho de hoje, 27 de maio de 2011: João 15,12-17.

«É este o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei»
Todas as palavras sagradas do Evangelho estão cheias de mandamentos do Senhor. Então, porque é que o Senhor diz que o amor é o Seu mandamento? «É isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros». É que todos os mandamentos procedem exclusivamente do amor, todos os preceitos são apenas um, e assentam sobre o fundamento único da caridade. Os ramos de uma árvore vêm da mesma raiz; de igual modo, todas as virtudes nascem exclusivamente da caridade. O ramo de uma boa obra não permanece verde quando esta se desliga da raiz da caridade. Os mandamentos do Senhor são pois múltiplos, e ao mesmo tempo são um só – múltiplos pela diversidade das suas obras, um na raiz do amor.

Como manter este amor? O próprio Senhor o dá a entender: na maior parte dos preceitos do Evangelho, ordena aos Seus amigos que se amem n'Ele, e amem os seus inimigos por causa d'Ele. Aquele que ama o seu amigo em Deus e o seu inimigo por causa de Deus possui a verdadeira caridade.

Há homens que amam a sua família, mas só por causa dos sentimentos de afeto que nascem da ligação natural. [...] As palavras sagradas do Evangelho não fazem nenhuma recriminação a esses homens. Mas o que se atribui espontaneamente à natureza é uma coisa, o que se deve pela obediência à caridade é outra. Os homens de que tenho estado a falar amam sem dúvida o seu próximo [...], mas segundo a carne e não segundo o espírito. [...] Ao dizer: «É este o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros», o Senhor acrescentou imediatamente: «como Eu vos amei». Estas palavras significam claramente: «Amai pela mesma razão por que Eu vos tenho amado.»

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Como entender este mandamento de Jesus?

Até alguns anos atrás, apresentei enorme dificuldade para entender e compreender esta passagem do Evangelho, pois até então, para mim, o gostar era uma coisa espontânea, que nascia do íntimo de cada pessoa. Se eu não gostasse de uma pessoa, como poderia amá-la incondicionalmente? Para mim “amar” e “gostar” queriam dizer a mesma coisa.

Entretanto, em certa ocasião assisti a uma palestra, em que o tema era exatamente o amor. Tratava-se de uma palestra que você tinha que assistir por estar num determinado evento e como o tema não era nada original, não dediquei muito interesse a ela. Recordo-me do milagre, mas não do santo, isto é, me recordo da fala do palestrante, mas não me recordo seu nome e nem o evento, o que demonstra quão pequeno era o meu interesse.  

E por que ficou em mim a recordação da fala do palestrante se eu não me interessei pelo assunto? Só posso dizer que talvez seja a ação transcendental que tinha algum objetivo ao me fazer gravar nas gavetas da memória o assunto daquela palestra. Aqui passei a entender a história da "semente plantada".

Dizia aquele palestrante que “gostar” e “amar” são duas coisas distintas! O gostar de alguém pode e geralmente desemboca em “amar”. Mas o “amar” pode existir sem que você goste da pessoa e mesmo sem que você conheça a pessoa!

Aí pensei – Ele está falando “abobrinha”!

Mas ele continuou: - Você que namora, é noivo ou casado, um dia “gostou” de sua companheira, certo? Com o passar do tempo, esse “gostar” foi se transformando em algo mais profundo, até que chegou a ser amor. Hoje você diz a ele ou ela, com a maior desenvoltura e do fundo de seu coração: Eu te amo! Mas, um dia, você apenas “gostou”.

- Você “gosta” do seu carro, da sua casa, do seu televisor de 40 polegadas? Claro que “gosta”, senão não os teria comprado! ... Mas você “ama” seu carro, sua casa, seu televisor? Não, claro que não! Você apenas “gosta”. Amanhã você certamente vai trocar seu carro por um mais novo e certamente vai também “gostar” dele; sua casa poderá ser trocada por uma mais nova, ou mais bem localizada; sua televisão por uma mais moderna! E você vai “gostar” das novas aquisições, mas jamais vai “amá-las” e sabe que poderá trocá-las por outras quantas vezes quiser ou puder.

- Falei de namoro, noivado e casamento. Com que facilidade se troca hoje de companheiro/companheira, de marido e de esposa!  Quem faz essas trocas, na realidade não “ama”, apenas “gosta”!

Não sei se deu para perceber, mas fica evidente que o “gostar” independe da nossa vontade, O “gostar” nasce do íntimo da pessoa, sem que a vontade atue!

Você pode até dizer: “não gosto mais, por exemplo, do “Honda Civic”, não realmente porque não goste do carro, mas porque não pode comprá-lo (é o meu caso). Então me contento com meu “poisé” e digo que gosto dele. Mas, no fundo, eu gosto mesmo é do carrão e nada vai mudar este sentimento, até que eu passe a gostar de outro carro ou de outro modelo. (Ultimamente, ando namorando o C4 Pallas – meu gosto está mudando sem que eu faça qualquer esforço neste sentido).

Ora, na passagem do evangelho de João são estas as palavras de Jesus: “É este o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei”.
E São Gregório completa: “Estas palavras significam claramente: «Amai pela mesma razão por que Eu vos tenho amado.»”.

Depois Jesus complementa: “como Eu vos amei”. O amor de Jesus é incondicional, gratuito e não exige reciprocidade.  

São Gregório nos diz que: “Há homens que amam a sua família, mas só por causa dos sentimentos de afeto que nascem da ligação natural. [...] As palavras sagradas do Evangelho não fazem nenhuma recriminação a esses homens. Mas o que se atribui espontaneamente à natureza é uma coisa, o que se deve pela obediência à caridade é outra.” (Grifei)

Já deu para perceber então que o “amar” de Jesus não nasce espontaneamente de uma relação ou ligação natural. O “amar” de Jesus nasce da vontade, da obediênca ao seu mandamento, da caridade.

Quer isto dizer que para “amar como Jesus amou” eu tenho que querer praticar este “amor”. Eu tenho que querer “amar” a humanidade, “amar” ao meu próximo, “amar” o não tão próximo e até mesmo àqueles que não me amam ou não gostam de mim.

Ah, como é difícil isto!

E realmente é muito difícil! Este “amar” não pressupõe que você tenha sequer que estar próximo ou mesmo conhecer. Supõe apenas e tão-somente que “nós amamos todas as pessoas, independente de serem, a nosso juízo, boas ou más”; independentemente de as conhecermos ou não! E até independentemente de serem nossos desafetos, adversários ou inimigos!

De tal forma que possamos dizer a quem quer que seja que nos tenha ofendido, agredido, caluniado, difamado... eu te perdoo meu irmão, porque te amo em Cristo e com Cristo!

Este amor está descrito de forma maravilhosa por Paulo em sua Primeira Carta aos de Coríntios, no capítulo 13, 1-13. Lá, ele chama o “amor” que Jesus nos mandou praticar de “caridade”.

E ele diz que se eu não tiver caridade, nada serei; ou, se eu não tiver “amor”, nada serei!

Vontade de amar – eis o grande segredo para acabar com todos os males da humanidade e que Jesus, há quase dois mil anos nos ensinou e nós até agora não aprendemos... Opa, estou generalizando!

Na verdade, muitos aprenderam e praticaram o amor que Jesus ensinou: Madre Teresa, Irmã Dulce, Dona Zilda Arns, Ghandi, Luter King, Dom Romero, Irmã Dorothy, Dom Helder Câmara, São Francisco de Assis... e muitos, muitos outros.

Mas estes muitos são poucos se compararmos com a humanidade toda. É bem verdade que existem muitas pessoas anônimas que aprenderam e praticam este “amor”. E muitos que convivem conosco também o fazem. Mas temos que reconhecer, com profunda tristeza, que não são tantos quantos deveriam... Se fosse talvez o dobro, não veríamos tantas injustiças acontecendo. Mas, por outro lado, temos que dar graças por esses poucos, pois são eles que ainda mantém um certo equilíbrio na humanidade, para que ela não descambe definitivamente para caos e a auto-destruição.

Pois bem, muito tempo depois daquela palestra foi que aprendi o que quer dizer “amar como Jesus amou”; a amar incondicionalmente, e entendi um pouco melhor o poema do Apóstolo Paulo.

Digo um pouco melhor porque ainda não consegui ser inteiramente “amante da humanidade”; apesar de ter entendido que o “amar de Jesus” depende, única e exclusivamente da minha própria vontade, ainda não consegui exercitá-lo por inteiro.  E me penitenciou por isso... Piedade Senhor!

... Eu quis aqui apenas compartilhar esta reflexão pessoal, e percebam que é uma reflexão que já dura alguns anos e ainda não consegui absorvê-la completamente. Para mim, isto se tornou como que um exercício, que devo praticar diuturnamente para um dia, talvez, chegar à perfeição... Acho, sinceramente, que nunca vou atingir esta perfeição, mas como um atleta, alimentado pelo Pão da Eucaristia, fortalecido pela Palavra, ungido e massageado pelo óleo do Crisma e assistido por um Técnico que está ao meu lado em todos os momentos de minha vida, sigo em frente... Apesar das pedras e dos obstáculos, apesar das caídas e recaídas... Vou caminhando... Nesta estrada que Deus vai me abrindo e que se chama Vida...  E um dia se chamará Vida Plena.   
Gazato

23 de mai de 2011

Música, expressão na liturgia. Algumas notas. - Maria Lúcia Pascoal

Música, expressão na liturgia. Algumas notas. Maria Lúcia Pascoal (Professora e pesquisadora da área de Teoria e análise Musical no Instituto de Artes da Unicamp) nos brinda com um belíssimo artigo sobre a música na liturgia, fazendo um retrospecto histórico e nos levando a uma interessante viagem musical, principalmente porque teve o cuidado de colocar vários links que nos fazem conhecer os diversos tipos e estilos de música que fizeram parte da liturgia desde seus primórdios, até os dias atuais. Portanto, é um artigo histórico e musical. Saboreiem...      


Música, expressão na liturgia. Algumas notas.
                                                                                              *Maria Lúcia Pascoal         

Resumo: Este artigo tem por objetivo observar aspectos da música sacra, praticada ou não na liturgia em diversos períodos históricos. Faz um recorte, procurando salientar compositores representativos das épocas citadas e os exemplos musicais podem ser acessados através da sugestão de links, nos quais os tópicos poderão ser ouvidos e conhecidos. Chega à conclusão de como a elaboração musical se torna História e ao mesmo tempo se afasta da participação das assembléias nas igrejas, até as mudanças trazidas pelo Concílio Vaticano II.

O Gregoriano
A Música sempre foi uma presença constante nas funções ligadas à liturgia, não importa de que religião. Nos estudos sobre a História da Música no Ocidente, as primeiras manifestações que se conhece se referem ao chamado cantochão, música essencialmente vocal, transmitida oralmente e que foi a forma de expressão musical das assembléias dos primeiros cristãos. Como esses cantos mantivessem diferenças entre as diversas regiões de que se originavam, surgiu a necessidade de uma unificação, para que fossem reconhecidos por todos e mais facilmente praticados. Quem procedeu ao início desse trabalho foi o Papa S. Gregório I, o Magno (590-604), depois continuado por outros, também Gregórios II e III, até o ano de 741, por isso o nome de canto gregoriano, usado até hoje. Esses cantos eram praticados em uníssono (uma voz só), se desenvolviam em pequenas extensões e os coros masculinos alternavam intervenções com as assembléias sem a participação de instrumentos, no que é o centro da liturgia católica: a Missa. Uma das características do canto gregoriano era o perfeito entrosamento e a expressividade entre música e texto. Com o crescimento da atividade, a transmissão até então oral, passa a ser anotada, trabalho realizado nos mosteiros europeus e se constitui nos primeiros exemplos de escrita musical no Ocidente. Todas as melodias desses cantos, praticados nas Missas e Ofícios foram reunidas na coleção que hoje conhecemos por Liber usualis, que mantém a escrita original[i]. E assim a música dos cristãos fez parte da História.


O início da polifonia
No centro da liturgia cristã estava a Missa estruturada em partes fixas e móveis. A expressão musical da Missa seguiu a Ordo Missae (Ordinário da Missa), constituída pelas fixas: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei. Esse formato acabou se tornando uma individualidade musical e os compositores passaram a escrever Missas para as funções litúrgicas, além de peças avulsas para as partes móveis e outras para várias ocasiões.
Porém, a prática musical não iria se contentar em continuar em uníssono e sem instrumentos, logo se desdobrou aos poucos em outras linhas de melodias, que se combinava com a principal, criando a polifonia (várias vozes ou partes simultâneas). Os primeiros processos consistiam em se partir de uma melodia do gregoriano e acrescentar a ela outra melodia. As duas soavam juntas e se combinavam.  Mas a Igreja não foi favorável a essa prática e, no Concílio de Lyon (1274) criou cânones para deter o que considerava ser pernicioso para os cultos. O argumento era de que o movimento das vozes dificultava o entendimento do texto. No século seguinte, o Papa João XXII (1324) reforçou essa oposição à música a duas ou mais vozes.


A polêmica continuou enquanto se consolidava a tendência para a música se desenvolver a várias vozes, cada vez mais elaboradas. Defendendo novas bases e propondo uma renovação musical, surge no século XIV e se desenvolve nas terras de França, Itália e Inglaterra, um movimento que se chamou Ars Nova, em oposição ao que havia antes, chamado de Ars Antiqua.  Um dos representantes desse pensamento musical é o compositor Guillaume de Machaut, que viveu entre 1300 (?) e 1377. Dele se conhece a que é considerada como a primeira Missa completa, a quatro vozes[ii]·, a Missa Notre Dame.


O que mudou na prática litúrgica com a chegada da polifonia foi o fato da assembléia não participar mais cantando, mas somente ouvindo, pois a elaboração musical foi se tornando muito trabalhada, o que demandava preparação anterior. A base das composições estruturadas a várias vozes poderia ser desde uma melodia gregoriana já conhecida até canções folclóricas e árias populares e as Missas levavam os nomes dessas canções, como Salve Regina, Ave Maris Stella, Adieu mes Amours, entre muitas outras. Só a ária  L’Homme Armé (O Homem Armado) foi usada por um grande número de compositores.


O Renascimento

É importante assinalar que o canto gregoriano continuou a fazer parte do repertório litúrgico, apesar das grandes transformações nas relações entre o homem e o mundo que irão marcar os séculos XV e XVI, com o Renascimento. Passou-se da visão de mundo teocêntrica (Deus como centro) para a antropocêntrica (homem como centro), quando todas as Artes floresceram enormemente. A música dessa época é marcada pelo alto desenvolvimento da polifonia, dos instrumentos musicais, dos estilos característicos de regiões, de formatos inovadores. Ao lado da música profana, os compositores continuaram a criar muita música sacra, sempre com base de textos em latim. Entre os compositores representativos, estão Josquin des Prez, Johannes Ockegem, Orlando di Lasso, Palestrina, Tomás de Victoria, e muitos outros.  A polifonia praticada na Inglaterra e a franco-flamenga desenvolvem características especiais. Vem dessa época o costume das igrejas manterem coros, escolas de música e os postos de regente e compositor, o Mestre-capela.

Link: Nos links abaixo, alguns trechos das obras destes autores:


O período do Renascimento, centrado nas características do Humanismo, fez uma grande crítica à Igreja Católica, o que provocou um cisma, a Reforma realizada por Martinho Lutero (1483-1546). Monge agostiniano, professor de Bíblia na Universidade de Wittenberg (Alemanha), Lutero conhecia a música dos compositores da época, tocava instrumentos e cantava. Entre os pontos básicos de seu pensamento estava a consideração de que a Igreja é a Assembléia do Povo de Deus e se fazia necessária a participação da comunidade dos fiéis na sua própria língua. Para tanto, se entregou à imensa tarefa de reorganizar a música litúrgica na que se chamou igreja luterana, contando com a ajuda dos músicos Conrad Rupff e Johann Walter. Voltou-se ao Saltério (Salmos), compôs vários Salmos, foram selecionados os melhores cantos corais (na língua alemã) e editados em um Hinário, que teve uma primeira edição em 1524. Desta constavam 38 cantos alemães e 5 latinos[iii].
A partir da Reforma, as igrejas que foram chamadas de protestantes desenvolveram a música em seus cultos, tendo sempre a preocupação de formar cantores, coros, regentes e instrumentistas. 
Na Igreja Católica do século XVI, também havia latentes movimentos de insatisfação contra os muitos abusos que eram cometidos nessa época e se iniciou a Reforma Católica, principalmente preocupada com a volta às origens do misticismo e da espiritualidade. Em 1545, o Papa Paulo III convocou o Concílio de Trento, que durou até 1563 e foi continuado pelos Papas Marcelo e Pio IV. Na deliberação sobre assuntos ligados a liturgia e música, os documentos recomendaram mais simplicidade e inteligibilidade na música polifônica da Igreja.
É então que se situa o compositor Giovanni Pierluigi da Palestrina, assim chamado devido a seu local de nascimento em 1525 ou 26, considerado “o primeiro músico da Igreja Católica”[iv]. Esteve sempre ligado à música sacra, tendo percorrido todos os passos da carreira musical, como cantor de coral, organista, regente e compositor na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma. Palestrina compôs cerca de cem Missas completas, além de Salmos, Hinos, e Motetes. Estes variavam entre quatro e doze vozes[v]. Desenvolveu a polifonia em pequenas idéias musicais que passam de uma a outra voz, em variações rítmicas, o que se tornou característica de sua composição.


O Barroco
A música “a capella”[vi] de Palestrina porém, não continuou muito além dele e seguiram-se tempos em que a música sacra aderiu ao Barroco (1600-1750), período de grande desenvolvimento instrumental, com música praticada nos templos com orquestras e coros muito desenvolvidos. O que bem representa essa época são as composições de Andrea Gabrielli (1520-1586) e Giovanni Gabrieli (1557-1612), organistas na Basílica de S. Marcos, em Veneza. Introduziram principalmente os instrumentos nas grandes obras corais e trabalharam o equilíbrio entre esses grupos, os quais eram distribuídos entre os vários espaços da Basílica na realização de efeitos acústicos.


Como o Barroco deu um grande incremento à música instrumental, esta também era praticada nas igrejas, tanto em pequenos conjuntos como em solos. Nos momentos solenes das Missas, como a Consagração, apresentavam-se solos de violino ou órgão.
Ao falar em Barroco, porém, é preciso se deter em uma figura dessa época, mas não representante desse fausto, que viveu na Alemanha, sendo cantor, organista, compositor, regente, Mestre-Capela, principalmente nas cidades de Weimar e Leipzig: Johann Sebastian Bach (1685-1750). Estava ligado à igreja luterana, mas sua arte transcende toda a funcionalidade para a qual foi pensada e se torna universal, um dos pilares da música no Ocidente. De suas composições sacras, salientam-se as Paixões, segundo Mateus e João, as Cantatas, que eram apresentadas semanalmente, perfazendo cinco ciclos anuais, os Oratórios, tudo isso ao lado de grande quantidade de música instrumental. Nos antigos Corais luteranos, criou peças instrumentais para órgão, os Prelúdios Corais e também os harmonizou a quatro vozes, formando a grande coleção dos 371 Corais. Dentre suas composições ainda são de se salientar a grande Missa em si menor, para a liturgia católica (Ordinário completo) e quatro missas luteranas (Kyrie e Gloria somente). A música de J. S. Bach conseguiu reunir a polifonia, com todos os seus processos de elaboração trabalhados desde o Renascimento e consolidar o novo pensamento que surgia então: a tonalidade, sistema com base nos sons simultâneos (acordes), com seus contrastes, conflitos e repousos. Dessa forma, J. S. Bach sintetiza uma parte da história da música e abre para outra, que defende conceitos os quais prevaleceram por volta dos trezentos anos seguintes. É mais um exemplo da música sacra fazendo História.
Confira nos links abaixo um pouco da obra de Johann Sebastian Bach:


Os séculos XVIII e XIX
Os tempos posteriores a J. S. Bach nos mostram compositores que trabalhavam para a aristocracia, tanto da realeza quanto da hierarquia da Igreja e de suas produções musicais constava muita música sacra, em sua maioria para ocasiões especiais, como coroações e grandes festas. E as Missas se modificaram bastante: corais se juntaram à orquestra sinfônica, partes solistas se tornaram muito desenvolvidas e formas musicais que se consolidavam constituíram-se nas partes do Ordinário, havendo muitas vezes liberdades quanto aos textos. É o que se pode ouvir em Joseph Haydn (1732-1809) - Missa in tempore belli e Missa Sanctae Caeciliae, nas oito grandes Missas de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), entre as quais a da Coroação K. 317, as dez Missas breves e o famoso Requiem. De Mozart ainda se conhece um bom número de peças avulsas, sobre textos de Kyrie, Ofertório, Salmos e Hinos, geralmente a quatro vozes e orquestra ou órgão. Conheça alguns trechos destas obras nos links a seguir:


Entre os séculos XVIII e XIX outra figura de compositor domina, revoluciona e se torna outro pilar da música ocidental com a sua música instrumental solo e sinfônica: L. Van Beethoven (1770-1827). Além de inovar e ampliar formas musicais, Beethoven mudou o relacionamento da profissão do compositor na sociedade. Tornou-se independente de nobrezas e administrava sua vida como profissional autônomo. Quanto à música sacra, concentrou sua criatividade na Missa solemnis. Amplia em número e timbres a orquestra de Haydn, o coral toma grandes proporções, os solistas, tudo para expressar-se nesta grande música litúrgica que, ao lado da IX Sinfonia, caracteriza bem o seu pensamento e sua crença no Humanismo.


Os compositores do século XIX também se interessaram pela música sacra e pela Missa em particular. Entre eles, conta-se Franz Schubert (1797-1828), Hector Berlioz (1803-1869) Missa dos Mortos (Requiem), para tenor solo, grande orquestra, e orquestra de metais.
Anton Bruckner (1824-1896) escreveu sete Missas, Salmos e um grandioso Te Deum.
Da obra de Franz Liszt (1811-1886) constam cinco Missas, entre as quais a Missa de Gran e a Missa Húngara de Coroação, um Requiem, ao lado de Salmos, Hinos e seis Oratorios. 
Gabriel Fauré (1845-1924) Requiem, Messe Basse, para vozes femininas e órgão. 
Cada vez mais a música sacra ia tomando importância histórica e artística, mas não servia mais à assembléia de fiéis na liturgia das Missas.


Século XX
O século XX marca grandes transformações no pensamento musical consolidado por J. S.Bach e continuado com as aberturas trazidas por Beethoven e os compositores do século XIX. Os princípios da tonalidade são contestados, especialmente no que era considerado som dissonante e a criação musical se abre a novos horizontes com novos relacionamentos sonoros. O timbre, elemento musical antes apenas tratado como efeito, se torna cada vez mais importante na composição. São muitas as tendências que surgem e os compositores se lançam em experimentações e criam novos conceitos musicais.
Porém, quanto à música sacra, não há contribuição dos compositores que marcaram as mudanças de metade deste século, como Debussy, Schoenberg, Bártok, Webern, entre outros, exceção feita a Stravinsky (1882-1971), com uma Missa, que segue a liturgia, mas raramente é executada como tal, pois é também para dez instrumentos de sopro[vii].  A composição de hinos, coros, música para órgão e missas continuou com compositores especializados que, na sua maioria, não se aventuraram nas transformações ocorridas e preferiram seguir o estabelecido nos séculos anteriores.


Capítulo à parte são os ‘negro spirituals’, originários de canções dos ex-escravos afros americanos que, misturados a hinos religiosos tiveram grande desenvolvimento nos Estados Unidos da América e criaram uma das bases do jazz, nas primeiras décadas do século XX.  
                  
Pode-se observar como a música sacra sempre atraiu compositores e se fez representar na História. Ao lado disso, na Igreja católica o canto gregoriano continuou a ser praticado, não mais por toda a assembléia como nos primeiros tempos, mas nos mosteiros pelos monges e conventos de ordens religiosas em geral e nas missas festivas. 
Essa situação só vai ser mudada com o Concílio Vaticano II (1962-1965), convocado pelo Papa João XXIII e terminado por Paulo VI que, passando a considerar que a Igreja é o Povo de Deus[viii] mudou consideravelmente a liturgia, pois esta passou a:
- ser celebrada no vernáculo, o que incluiu a música cantada;
- aproveitar as manifestações culturais de cada país, o que trouxe a música popular para a igreja, com instrumentos como violão e percussão, entre outros;
- constituir a assembléia como participante, não mera assistente, o que implicou na prática de músicas que todos possam cantar.
Depois do Concílio Vaticano II, a música sacra precisou criar um novo repertório e procurar uma boa comunicação. Hoje, às vésperas de comemorar cinquenta anos, pergunta-se: como vai a música depois do Concílio?
Mas esse é um assunto complexo e pode ser tema para outro artigo.


[i]  A notação original constitui-se de pauta de quatro linhas e claves de Do e Fa.
[ii] As quatro vozes básicas são formadas por: soprano e contralto, as agudas e graves femininas; tenor e baixo, as agudas e graves masculinas. 
[iii] Lang, p. 166.
[iv] Lang, p. 185.
[v] Por vozes, entenda-se linhas diferentes.
[vi] “a capella” é um termo que significa música coral sem qualquer interferência de instrumento.
[vii] Griffths, p. 148.
[viii] Lumen Gentium. Cap. II. pp. 19- 38.


Referências bibliográficas

GRIFFITHS, P. Enciclopédia da música do século XX. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
LANG, P. H. Music in Western Civilization. New York: Norton, 1963.
Lumen Gentium. Constituição dogmática do Concílio Ecumênico Vaticano II sobre a Igreja. São Paulo: Paulinas, 2006.
Liber Usualis Missae et officii. Tournai: Desclée, 1963.
SADIE, S. (Ed.) Grove´s Dicitionary of Music and Musicians. 2 ed.London: McMillan, 2001.

* Maria Lúcia Pascoal – Professora e pesquisadora da área de Teoria e análise Musical no Instituto de Artes da Unicamp.